A Outra História da Ditadura – Parte 2

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Links:
1 – Sobre a real inflação Brasileira
–  Sobre a real inflação Brasileira, link 2

2 – Sobre a violência no Brasil

3 – Sobre a real taxa de desemprego
– Sobre a real taxa de desemprego, link 2

4 – Sobre a Venezuela

5 – Sobre a Bolívia


AVISO AOS NAVEGANTES: 

O TERMO “ESQUERDA” USADO NO POST SE REFERE SEMPRE A ESQUERDA REAL, OU SEJA, AOS PARTIDOS QUE SE AUTO INTITULAM DE ESQUERDA E QUE HOJE GOVERNAM A MAIORIA DOS PAÍSES DA AMERICA-LATINA, ENTRE ELES VENEZUELA, BOLÍVIA, URUGUAI E BRASIL. NÃO PRETENDO ANALISAR AS DIFERENTES NOÇÕES DE ESQUERDA, BEM COMO SUAS DIFERENTES FILOSOFIAS OU PRÁTICAS, TÃO POUCO QUESTIONAR O SENTIDO SUBJETIVO (E UM TANTO PESSOAL) DE ESQUERDA ENQUANTO “ANSEIO” OU PREOCUPAÇÃO POR UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA E MENOS DESIGUAL.

Não acredito que haja qualquer ligação entre a moeda corrente na Itália em 1939 e a nossa atual moeda de 1 real além de uma coincidência do destino, este, por sua vez, não nos deixa de sorrir em sua implacável ironia.

Abertura política, vitória da democracia, civis novamente aprumando o mastro que conduziria a nação. Estes eram os ares que nos inflavam na década de 1980, soprados pelos políticos do PMDB e pela Frente Liberal. O Regime Militar dava seus sinais clínicos de falência, a população clamava por eleições diretas, o país pedia por uma nova Constituição.

O destino não poderia se desdobrar de forma mais curiosa..

O partido que hoje ocupa o Executivo, o Partido dos Trabalhadores, também teve sua origem no bojo político e intelectual à época, da qual nascera a vasta maioria dos partidos que despontam no cenário atual do país. Os mesmos indivíduos que hoje, papudos, orgulham-se do alto de suas narinas bolcheviques de terem pegado em armas contra o Regime Militar tido como de “extrema direita” são também os protagonistas dos mais sérios escândalos de corrupção da Nova República. Dizer simplesmente que estes indivíduos, hoje condenados e julgados pelo STF “viraram de direita”, como se acometidos de uma doença repentina, me parece um tanto simplório demais. Dizer que o PT já foi um partido de esquerda, porém fora “corrompido” pelo poder também me parece uma visão rasa das últimas décadas..

Em 31 de março próximo o Golpe Militar de 1964 terá completado 50 anos. A versão oficial ecoada desde a redemocratização de 88 descreve um governo progressista e popular de João Goulart sendo sequestrado por “forças conservadoras” composta pelos militares e pela classe média. Os mesmos professores de História que alardeiam essa versão dos acontecimentos nas salas de aula esquecem-se de enfatizar um pequeno detalhe: João Goulart, o Jango, já havia tentado um golpe pedindo ao Congresso o Estado de Sítio em 1963. Paralelamente a isso, grupos de guerrilheiros recebiam treinamento militar em Cuba e na China, a mesma China de Mao, a China de 20 milhões de mortos.

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“Nós somos socialistas, nós somos inimigos do sistema econômico capitalista atual de exploração dos economicamente fracos, com seus salários injustos, com sua ultrajante avaliação de um ser humano de acordo com sua riqueza e propriedade ao invés de responsabilidade e comportamento, e nós estamos determinados a destruir esse sistema, custe o que custar.”

Simpatizou com discurso? Votaria nesse candidato? Então anote bem o nome do sujeito:
Adolf Hitler.

Os defensores da esquerda prestidigitam reportagens, artigos em jornais e notas de rodapé, conduzem verdadeiros malabarismos para jogar no colo da direita a responsabilidade pela criação do Nazismo e do Fascismo que assolaram a Europa no século XX. É verdade sim que tanto Mussolini quanto Adolf Hitler apelaram aos banqueiros e industriais a fim de custearem seus projetos totalitários. Mas isso não os caracteriza como governos de Direita. Ora, se o governo petista de Dilma e Lula pode fazer parceria com a empresária Luiza Trajano, dona da Magazine Luiza, para venda de móveis e utensílios domésticos com crédito facilitado, isso também os caracteriza como um governo de Direita? Ocorre que a esquerda atual aprendeu com o que a esquerda do século passado comprovou na prática: Uma economia planificada, 100% estatal é impossível. Nazismo e Fascismo eram governos centralizadores que perceberam que não poderiam estatizar a economia, portanto, resolveram trazer para perto de si os empresários à época, exatamente como nosso Governo atual faz hoje..

Mas não se desespere, não ainda, afinal, temos uma oposição no país não é mesmo? Não, não temos.. Não é apenas o PT que parece se entreter com esse jogo perigoso entre Estado e empresas “parceiras”, se o Partido dos Trabalhadores tem indícios fascistas discretos, acobertados por toda a sua propaganda populista, a grande oposição do país, o PSDB prefere o fazer de forma mais descarada. Afinal o Partido Social Democrata Brasileiro também possui a palavra Social em seu nome, exatamente como o Partido Nazista de Hitler, ou partido Nacional-Socialista.

Agora sim, podemos começar a nos desesperar: não há oposição de fato no Brasil.

O próprio sociólogo Fernando Henrique Cardoso já se declarou em entrevista devoto fervoroso de Antonio Gramsci, intelectual comunista perseguido e preso na Itália de Mussolini.

Isso me faz pensar novamente na moeda.. Como os perseguidos se tornaram os perseguidores? Como as ideias de Gramsci e de outros pensadores da esquerda ajudaram e ajudam a montar o monstro do fascismo? Como e onde o pensamento de esquerda dobra a democracia em uma moeda de uma só face?

Continua…

Para saber mais:

O Nazismo foi mesmo de Direita?

O Cálculo Econômico Sobre o Socialismo

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A Outra História da Ditadura – Parte 1

 

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O Ano era 1966. A intervenção militar havia afastado João Goulart da Presidência da República em 64. Eleito pelo Congresso, o General Castello Branco assume a cadeira com a incumbência de convocar novas eleições e restabelecer a democracia. A contra-gosto de Castello Branco, que não era favorável à permanência de militares no poder, o General Costa e Silva se lança candidato.
Na manhã do dia 25 de julho, uma maleta sem dono fora deixada no saguão do aeroporto de Guararapes, Recife. O estranho objeto chamou a atenção de Sebastião Thomaz de Aquino, o “Paraíba”, guarda-civil a serviço naquele local. O artefato poderia não ter dono, mas tinha um alvo certo, o então candidato à presidência, General Costa e Silva. A explosão deixaria Sebastião de Aquino sem sua perna direita, além de dezenas de feridos. Costa e Silva, devido a problemas no avião que o deixaria em Recife, completa seu percurso por via terrestre, escapando do atentado a bomba.

Era o início da luta armada no Brasil.

Acordei naquele 31 de agosto de 2013 e tudo que rolava no bidimensional mundo de bytes das redes sociais era a inusitada confissão da Globo. Era realmente inusitado, assim, da porra do nada. Mas talvez fosse necessária àquela corporação.

Se os Marinhos estavam lavando seus nomes, reestruturando negócios ou resolveram dar entrada em algum terreno no céu, não me interessou muito. O que me deixou perplexo na verdade foi a enxurrada de matérias começando com o título “como interpretar…” a tal da confissão.
Deu pra notar que o conteúdo do levante de artigos ensinando o povo a ler tinha uma mensagem quase desesperadora: Não importa quem fale o quê, a Ditadura Militar só mergulhou o país em atraso e retrocesso e o pior, impediu os avanços de um governo popular encabeçado por João Goulart, o Jango, presidente à época.

É.. Assunto difícil. 

Mas o que me incomoda, na verdade, é quando este mundo bidimensional começa a dar sua forma ao mundo esférico em que vivemos.

É preciso que algumas fichas caiam para você, como caíram para mim. A primeira delas talvez seja entender que fecharmos este capítulo da nossa história, desta forma como aí está, é interessante para alguns grupos que hoje compõem (na verdade, quase praticamente dominam) o cenário político-cultural brasileiro. A outra segunda ficha importante, é que você não vai encontrar a totalidade dos fatos no seu livro de história do ginásio..

O século XX é chamado, por alguns historiadores, de o “Século Assassino”. Mais pessoas morreram no século XX do que em toda a história da humanidade como a conhecemos e essa mórbida contagem não ocorreu por acaso. A Europa era varrida por estados totalitários empenhados em dizimar grandes parcelas de sua própria população, não apenas judeus, mas eslavos, ciganos, ucranianos e todos aqueles que a “revolução” iniciada por Lenin e deturpada por Stalin rotulava como “povos atrasados” ou “lixo racial”.
A década de 1960 estava cravada no auge desses massacres. Marcada para o Brasil e para o restante da America Latina, por acirradas disputas tanto no campo ideológico, como nas ruas, muitas vezes de forma violenta. Era o período da Guerra Fria e ambos os blocos (o capitalismo do ocidente e o comunismo na Europa) corriam para angariar novos terrenos, corações e mentes.
Mesmo após a morte de Stalin, o leste europeu ainda era dominado por uma URSS totalizadora, e assassina.. A China seguia em seu encalço, liderada por Mao Tse-Tung, descrito no Livro Negro do Comunismo, como responsável por mais de 19,5 milhões de mortes, em sua esmagadora maioria, da maneira clássica praticada pelo stalinismo, um sumário tiro na cabeça daqueles que discordavam deste modelo de “novo mundo”.

Foram por estes países em que andaram nossos guerrilheiros naquela época. Fora da China que João Goulart, o Jango, regressara para assumir a Presidência da República em 1961, incumbido de trazer este modelo de “governo popular” para solos brasileiros.

Continua..

Redes na Rua

O sábado penúltimo levantou azul. O Sol impunha-se soberano no céu. O primeiro debate do ciclo “As Redes e as Ruas” do Dia Internacional da Juventude estava marcado para as quatro da tarde, com os convidados Graziela Kunsch (artista, TarifaZero.org e Movimento Passe Livre), Pablo Capilé (Fora do Eixo e Mídia Ninja), Pablo Ortellado (USP) e André Bueno (Exposição Autonomídia). O lugar era o CCJ, localizado na Vila Nova Cachoeirinha – SP.
O dia ensolarado convidava ao ar livre de tal forma que me meter em um metrô e um ônibus por mais de uma hora e meia não me animaram. Botei um shorts confortável, prendi firme a mochila e trepei na bicicleta. Nunca havia me aventurado por aquelas bandas de modo que tentei desenhar o melhor percurso pelo google maps antes de partir.
Foi um desastre. Enfiei-me em avenidas, viadutos, errei a entrada, voltei, perguntei para um frentista, errei novamente. Entre saídas do selim para empurrar a bike e voltas a ele, observava como São Paulo era projetada para a cultura do carro. Gigantescas vias de duas, três e até quatro faixas intercortadas por viadutos expeliam toneladas de metal motorizado em um fluxo contínuo. Era preciso realmente se jogar em alguns trechos para conseguir atravessar uma rua ou ponte. Nas regiões mais residenciais, a configuração das ruas era quase cômica, a quantidade de entroncamentos e bifurcações te fazia ficar na mira de um farol praticamente todo o instante. Pensava sobre a proposta do Passe Livre, de como mais pessoas andando em ônibus forçaria a melhora do serviço, pois aumentaria a demanda e talvez desafogasse o trânsito.
Cheguei no CCJ encharcado de suor e ridiculamente atrasado. Uma grande perda, Pablo estava concluindo sua fala, gostaria muito de tê-lo ouvido. Aliás, gostaria de deixar registrado meu espanto pelo CCJ, em minha telha ingênua, havia erguido na minha cuca um local não mais do que uma casa, como essas escolas de inglês pequenas. Ao me deparar com o enorme complexo me senti bobo, e bem ao mesmo tempo. Paredes grafitadas, grandes espaços para encontros, lugares para shows, estacionamento de bicicletas. Tudo parecia novo e limpo.
Apressei-me logo a sentar e puxar o caderno de rabiscos. Graziela, a integrante do Passe Livre tomou o microfone. Era uma moça no seus 35. Começou contando que havia pensado em seu discurso enquanto lavava a louça, indicou com os olhos uma cadeira vazia em seu lado direito e disse algo, se me lembro bem, mais ou menos assim “… ele não pôde vir, mas nós deixamos essa cadeira aqui” Pablo Ortellado completou “…deve estar lavando a louça dele”. Então percebi que havia realmente uma cadeira vazia entre ela e o Pablo. Capilé não compareceria. “Perdi a chance de ouvi-lo” pensei com minhas canetas.
Graziela tinha uma fala calma e coesa, porém muito emotiva. Não era um discurso sentimental, mas havia a intensão de trazer um sentimento para suas palavras, uma sinceridade, mais do que defender uma tese, preocupava-se em passar uma experiência. Chamou a atenção para a importância da discussão vir para o plano real, para o encontro físico, pro “olho no olho”. De cara me tocou bastante.
Contou-nos de sua residência pela Casco, uma instituição de arte em Utrecht, Holanda. A Casco idealizou a The Grand Domestic Revolution, um projeto artístico inspirado no livro homônimo de Dolores Hayden que contou com a realização de vivências em espaços coletivos e exposições . O projeto foi realizado em um apartamento por dois anos. Graziela relata em seu blog como, no decorrer deste espaço de tempo, a casa idealizada pela Casco foi se acumulando de coisas, móveis, peças de arte (produzidas pelos artistas residentes) e toda sorte de entulhos deixadas pelos moradores. Como um contraponto a proposta, ela começou uma série de atitudes que denominou de “não ações”, Graziela começou abrindo as janelas, limpando os cômodos e retirando a sujeira.
André Bueno, curador da exposição “Autonomídia” que acontecia dentro do espaço do CCJ explanou sobre sua realização. Apontou para uma tela que exibia cenas das manifestações que ocorriam nas ruas do país. Parecia preocupado em entender o papel do vídeo e da fotografia nessa nova forma de se fazer revolução, lembrei-me da conhecida frase “A revolução não será televisionada” e como ela perdia seu sentido, talvez por pertencer a um conjunto de paradigmas de outras épocas, desmantelados pelo surgimento da internet.
Terminada sua fala, um rapaz alto e barbudo ganhou a mesa onde os debatedores estavam sentados, seu nome era Felipe, era um dos integrante do Fora do Eixo, que falaria no lugar do sumido Capilé. E logo começou de fato, a por ela em prática. Anotava tudo que podia, de repente comecei a perceber que o mesmo jeito dele falar era o jeito que ouvia do boca do Capilé no Roda Viva. A mesma intonação na voz conduzia o discurso entre “saca” e “narrativa”. O Conteúdo era também parecido com o que lemos e ouvimos de Capilé, a ideia do Fora do Eixo de uma nova forma de se pensar vivência e trabalho e como o mídia ninja surge como um reflexo dessa dinâmica, em um contexto onde a mídia tradicional, enquanto negócio e, por isso, presa ao “establishment”, perde sua credibilidade.
Pablo se pronunciou. Lembrou da mídia alternativa que se formou no começo da internet no Brasil e das entidades que a compuseram, como o CMI (Centro de Mídia Independente) e colocou na mesa de debate que o Mídia Ninja não inovava em sua transmissão, pois ainda se valia da idéia de um intermediário entre o acontecimento e o espectador e que essa prática já era realizada no começo dos anos noventa.

Talvez agora consiga entender a fala de Graziela, suas “não-ações” e a necessidade do encontro “cara a cara”. Em uma cidade onde a própria mobilidade física é um problema, o papel das redes se perde no espaço virtual e não encara o asfalto. Até porque, o estopim de toda essa discussão não se deu na nuvem, mas nas ruas, quando o preço da passagem aumentou de três para três e vinte. Aqui consigo pegar emprestado a fala do Pablo, filmar as manifestações não garante o entendimento das mesmas, ou seja, a relação espaço físico x virtual precisa “abrir as janelas” para o mundo de calçadas e concreto do real. Não há mais espaço para uma mídia que concentra o veículo em sua mão. Que a foto e o vídeo irão se transmutar, isso não há dúvidas, resta agora refletir uma nova forma do uso dessas ferramentas para irmos além da toupeira Ninja.

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Para saber mais:

Casco

The Grand Domestic Revolution

CMI

CCJ

Imagenária protesta! Arte e Revolução

Há meses tento reativar essa empreitada maluca que um dia talvez seja o Imagenária. Pois bem, fechemos bem as escotilhas, aprumemos as velas e partamos, tímidos, sob trancos e solavancos por entre a tormenta desses dias difíceis.
Os preços disparam nas prateleiras dos supermercados e a inflação, antes um fantasma de outros natais, agora já se faz ouvir seu galope, preocupantemente perto, ceifando nossos salários e correndo rasteira no encalço de nossos bolsos. Seguimos sozinhos, desconfiados da própria sombra, equilibrando-nos sob a utopia cada vez mais estreita da promessa de um Brasil. Lobby, Corrupções milionárias, repressão e censura. São tempos amorais em que os maiores absurdos somam-se às linhas banais dos noticiários, amortecendo-nos, em doses homeopáticas, nos levando a nos recolhermos em nós mesmos, tolerando o intolerável, cada vez mais intolerável.
A intelectualidade nacional (com raras e preciosas exceções) parece perdida em algum lugar do passado, ecoando teorias e analisando o país segundo uma ótica de 50 anos atrás. Parecem não entenderem que não vão encontrar a explicação sobre o que está nas ruas entre as linhas de suas velhas teses, é simplesmente outra coisa. Temerários por uma revolução esquerdista, temerosos de uma ditadura mitológica. Essa mesma intelectualidade que corria para analisar a “nova classe média” nacional agora parecem rechaça-la, evidentemente, pois dali há a chance de um ataque de extrema direita, culpam e despacham a sentença antes de se cometer o crime, rasgando a foto em que antes pousavam sorridentes perante os “avanços” da promessa de um governo dos trabalhadores.

Toquemos o barco.

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Estamos de volta! E estamos bravos! Muito bravos! Arte e protesto. Nas semanas que abalaram o país, Imagenária propõe um passeio pelos artistas da luta.

Os rostos brancos sorridentes marcham pelas ruas, um exército de anônimos. Quem esteve nos protestos nas semanas de junho, se deparou com a famosa máscara criado por David Lloyd para a Grafic Novel de Alan Moore, V de Vingança. Em entrevista a UOL, o roteirista de quadrinhos disse desejar “o melhor para os protestos no Brasil”.

Alan Moore fala, em entrevista para o site UOl, “Acho que o que estão fazendo é maravilhoso e espero que isso progrida para uma vitória”)

A imagem condensa uma idéia, se tornando um símbolo de forte impacto e rápido entendimento por praticamente qualquer um apto a enxerga-la. E este é o papel da arte para o ativismo nas ruas, ou “artivismo” como nomeia Carlos Latuff. Chargista conhecido mundialmente pelas charges em prol da causa palestina, começou sua carreira em 1990 publicando sua primeira charge para o Sindicato dos Estivadores e permanece trabalhando para a imprensa sindical até hoje. Em entrevista para o jornal online 247, disse “agora mais do que nunca é preciso levantar a voz e as canetas contra o estado policial em que estamos mergulhando”.

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o “artivismo” de Latuff

Latuff conta que os protestantes utilizam o Twitter para pedirem charges e utiliza a internet como principal meio de propagaçao de de seu trabalho

“(…) o fato é que a gota d´água foram vinte centavos. O balde transbordou e nos deu um banho gelado. Daqueles de acordar.” Rafael Grampá, na revista Sobre Ontem.
Nem a ameaça de chuva impediu de lotar a pequena galeria na Rua Augusta no lançamento da revista colaborativa Sobre Ontem. Criada por 17 quadrinistas brasileiros, Sobre Ontem é um relato belíssimo e sincero do sentimento que tomou as ruas nos dias de junho. Entre belas sequências de quadrinhos e textos em prosa, Gabriel Bá, Fábio Moon, Laerte, Rafael Coutinho e tantos outros nomes de peso na produção em quadrinhos nacional interpretam com criatividade toda a indignação dos ativistas e a dura repressão da polícia, o lobby das empresas de ônibus e as denuncias de corrupção.

Sobre Ontem, um registro sincero dos protestos de junho

Sobre Ontem, um registro sincero dos protestos de junho

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A Terceira Guerra Mundial já começou. Essa é a premissa da Third World War Illustrated. Criada pelo grande Peter Kuper e Seth Tobocman nos anos de 1980, TWW é uma compilação de histórias de diversos artistas, lançada duas vezes ao ano (contribuições esporádicas de Art Spielgman, nada mais nada menos do que autor de Maus) sobre a luta diária de diversas pessoas ao redor do mundo.

Third World War Illustrated, Se as primeiras duas Grandes Guerras foram eurocêntricas, a terceira não é.

Third World War Illustrated, Se as primeiras duas Grandes Guerras foram eurocêntricas, a terceira não é.

No blog da revista, seus fundadores descrevem a Third World War Illustrated como “uma revista em quadrinhos política semestral” cuja missão é “dar um brilho de realidade à fantasia do mundo cleptocrático norte-americano” (livre tradução).


Do vazamento de óleo nas bacias aos conflitos na Faixa de Gaza, TWW é o recorte do que expressa tão bem o blog Bloggzini da Chili com Carne

“Se as primeiras duas Grandes Guerras foram eurocêntricas, a terceira não é. É tão pós-moderna como os dias em que vivemos: fragmentada e irônica, cosmopolita e mediática, local e escondida, com eventos chocantes vividos até à exaustão para serem ignorados logo a seguir.”

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Para saber mais:

Brasil 247

World War 3 Illustrated

Peter Kuper

Seth Tobocman

Mulheres que Amamos. Uma seleção de mulheres de tirar o fôlego

Belas, inteligentes, fatais. Do caminhar decidido ao olhar ferino, povoam nossa telha e nos convidam a imaginar. Imagenária celebra os 100 anos do mês da mulher apresentando autores que homenagearam o universo feminino com beldades que fazem muito mais do que usar o salto alto e nos tiram o fôlego.

Cinema e quadrinhos foram marcados, no início, como territórios masculinos. Histórias em Quadrinhos norte-americanas dos anos de 1960 como Homem-Aranha e Super-Homem nos trouxeram a clássica figura da moça indefesa, presa dos inimigos do protagonista que se empenha para salvá-la. Essa figura remete a imagem dos contos de fadas, em que a donzela espera pacientemente pelo seu príncipe encantado. Essa figura da donzela e os ícones que a rodeiam representam os clássicos valores de sexualidade, à espera do “homem certo” para a entrega da virgindade, a moça, pura, assiste, como personagem periférico, ao elemento masculino que prova seu valor e direito de conquistá-la.

As revoluções das décadas de 1970 e 80 tiraram a figura da mulher de mera observadora passiva dos acontecimentos para o papel de destaque. Idealizada por homens que buscavam mais do que um motivo para o herói vestir a capa e sair pela cidade, a heroína concentra todas as qualidades de uma mulher moderna, independente, segura, encantadora, letal.

Elektra, a assassina de Frank Miller, pelas mãos do mágico Bill Sienkiewicz

Elektra, Femme Fatale de Frank Miller, ganhou vida pela primeira vez na edição 168 de Daredevil (Demolidor), em janeiro de 1981. Filha de um embaixador grego nos EUA, Elektra Natchios conhece Matt Murdock (o Demolidor) em um rápido encontro quando a moça ainda era uma adolescente. O pai de Elektra é assassinado em um atentado terrorista. Traumatizada, Elektra volta para a Grécia e, depois de um extenço treinamento, retorna para a América como uma ninja assassina. Passa a trabalhar como mercenária, para mafiosos e para o Rei do Crime se tornando vilã de Murdock que, apesar disso, apaixona-se pela moça.

Elektra ganhou uma edição limitada especial, em 8 edições entre agosto de 1986 a março de 1987, escrita por Frank Miller e ilustrada pelo mágico Bill Sienkiewicz em um trabalho autoral se passando depois do retorno da heroína aos EUA, já como ninja mercenária, mas antes de se deparar novamente com Matt Murdock. Em Elektra, Assassina, a moça enfrenta o Tentáculo, uma rede de mafiosos que ameaça a presidência dos EUA.

Elisbeth Salander, a hacker investigadora da Trilogia Millenium. Seus métodos podem ser um tanto quanto ilícitos, mas sem dúvida efetivos, muito efetivos...

Elisbeth Salander, da trilogia Millenium, criação do jornalista Sueco Stieg Larsson lançado no Brasil entre 2008 e 2009, apareceu nas telas pela companhia sueca Yellow Bird e depois em uma versão Hollyoodiana, interpretada por Rooney Mara e dirigida por David Fincher.

 A Trilogia Millenium foca em casos de violência contra mulheres, desde estupro a tráfego humano justamente porque o jornalista presenciou, quando jovem, o estupro de uma jovem de nome Elisbeth resolvendo dedicar sua série Millenium a ela. A hacker investigadora é descrita por Larsson como uma jovem pequena, mirrada e muito inteligente. Sua interação com o repórter investigativo Mikael Blomkvist (Daniel Craig no versão Norte-Americana) gerou umas das químicas mais interessantes do cinema neste ano.

Miho, outra criação do mestre Frank Miller. A japonesa famosa por andar nua e proteger as prostitutas de Basin City, a Cidade do Pecado

Miho, da série Sin City, outra criação de Frank Miller, retrata uma japonesa marcada por andar somente com um sobre-tudo pelo Centro Velho da cidade de Basin, a Cidade do Pecado, local das prostitutas, protegendo as Senhoras das Ruas dos mafiosos e policias corruptos. Miho se apresenta usando duas Katanas (espadas japonesas) e é aparentemente muda. Atuando como uma verdadeira ninja, esgueira-se silenciosamente pelos prédios da cidade e executa seus adversários de forma silenciosa e rápida. O único homem que Miho parece dar ouvidos é o personagem Dwight McCarthy, por este tê-la salvado de gangsters que queriam mata-la. Sin City recebeu uma adaptação para os cinemas, dirigido por Robert Rodrigues, Frank MillerQuentin Tarantino. O papel de Miho ficou para a atriz Devon Aoki.

E como somos um blog brasileiro e muito arretado, não poderíamos deixar de falar de Kátia Maria Faria Lins, a detetive de Belo Horizonte Velta. Criação do paraibano Emir Ribeiro, Velta foi publicado pela primeira vez em 1973 quando o ilustrador tinha 14 anos de idade (!!!) no jornal mural O Comunicador do Colégio Estadual de Jaguaribe. Kátia é uma moça de Belo Horizonte que, após ser usada como cobaia de um alienígena, adquire a habilidade de se transformar em uma loira de 2,20m, atlética, com capacidade de soltar descargas elétricas por qualquer parte do corpo.

O que impressiona em Velta é o forte senso que Emir Ribeiro desenvolve de questões sociais e políticas, transportando toda a atmosfera das histórias em quadrinhos norte americanas (inclusive o traço de Emir Ribeiro, totalmente influenciado pelos quadrinhos estadunidenses) para a realidade nacional, com elementos de nossa política e personagens indígenas por exemplo. Velta aparece como uma heroína, personagem principal de tramas que envolvem lutas, investigações e mistério. É incrível a noção de independência de uma personagem criada por um paraibano na década de 1970! As histórias também são marcadas por um forte erotismo, talvez influência dos seriados policias da época.

Abaixo, uma pequena História e Velta. No pequeno conto, Velta intercepta um homem que roubou uma bolsa de uma Madame da Alta Classe em Belo Horizonte, reparem na conclusão da História.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entrevista: Imaginando com o Ilustrador Raoni Marqs

A Imagenária tem o orgulho de inaugurar a página Imaginando. Sempre que possível, entrevistas, contos, ilustrações, divagações de pessoas como a gente, para a gente. Imaginando é uma área livre, ou seja OCUPEM esta página. Envie seus textos, desenhos, opine, critique, comente e imagine…
Se você gostaria de ver seu trabalho aqui, entre em contato pelo e-mail: blogimagenaria@gmail.com. Muito obrigado pela atenção!

Temos o orgulho de abrirmos o Imaginando com os trabalhos do ilustrador Raoni Marqs. Confiram!

Imagenária entrevista Raoni Marqs, ilustrador, colaborador do Box Series e fundador e CEO do site Balnilia&co.

I- Conte um pouco sobre você, como começou efetivamente a desenhar, o que o levou a escolher essa carreira? Quais foram seus incentivos e suas dificuldades.

Eu não escolhi muita coisa… Eu desenho desde pequeno, e até hoje não chega a ser uma carreira. É só uma coisa que eu faço. Os incentivos são… ver um desenho legal quando eu acabar – e saber que fui eu quem fiz. É idiota, mas é realmente divertido ver que você desenhou alguma coisa que deu certo.

I – Seu estilo de trabalho parece ser bem variado, entre charges rápidas e ilustrações mais rebuscadas, utilizando ora animais, ora figuras humanas, todas caricaturadas, como se dá esse processo criativo? Que materiais você utiliza?

Funciona assim: eu penso numa pose exótica… e tento colocar o máximo possível de coisas em cima disso. Quando parecer bonito e ameaçador é porque está pronto.

A influência do ilustrador Akira Toriyama, criador da série Dragon Ball

I – De cara seu trabalho me faz lembrar ícones do mangá como Akira Toriyama (criador da série Dragon Ball) ou mesmo Eiichiro Oda, da série One Piece, mas com uma pegada mais nacional. Essa influência realmente existe? Que artistas o influenciaram e ainda influenciam?

É… eu meio que esqueci tudo o que eu sabia depois que eu comecei a ler One Piece, que é, de longe, o melhor mangá de todos os tempos (aquele cara é bom demais, chega a ser idiota). Mas eu também aprendi a desenhar muita coisa lendo Takehiko Inoue que fez Slam Dunk e Vagabond, e com o Yukito Kishiro que fez Gunnm. E desaprendi bastante com o Taiyo Matsumoto que é melhor que todos eles, porque ele consegue desenhar tudo errado e fica lindo. Bom, e Dragon Ball… Até o Emicida é fã de Dragon Ball, é meio que uma inspiração universal, haioshaoshaiosh

I – No Box Series, você parece ter bastante liberdade para escrever da forma que deseja, como surgiu a oportunidade de trabalhar no site? Como você escolhe as postagens?

Eu fiz um post idiota sobre a Britney participar do Glee no Balnilia, e um dos criadores do Box achou o máximo e me chamou pra escrever coisas daquele tipo pro site. Daí eles me deram minha própria coluna, mesmo eu não sabendo nada sobre séries, haioshaoshaio. Então, a minha pauta é basicamente “o que eu quiser”. Normalmente eu só escrevo alguma coisa bem imbecil, mas às vezes eu me divirto falando muito mal de qualquer série que os adolescentes adoram, tipo Glee ou Big Bang Theory porque todo mundo enlouquece e mil pessoas entram e leem o texto só pra me xingar. Às vezes eu também falo consistentemente sobre séries o que acaba virando um texto bem chato.

I – No blog Balnilia você parecia ilustrar charges muito ligadas ao seu dia a dia, suas relações com colegas da faculdade, montagens sobre acontecimentos do cotidiano além de Star Wars, como surgiu a ideia do blog? Como se dava o processo criativo?

Então, o Balnilia surgiu porque eu queria fazer um livro infantil só com coisas absurdas, porque eu tava na vibe da Lauren Child que fez os livros da Clarice Bean e do Charlie & Lola. Mas ele acabou virando um blog, porque assim eu podia escrever, desenhar e publicar assim que tudo estivesse pronto – que é todo o poder que a internet te dá pra ser criativo e chamar a atenção das pessoas imediatamente. Por isso que, no começo, ele tinha histórias inteiras, tinha uma formatação certa, era lindo. E era completamente retardado – se você pegar umas coisas tipo ‘Lotte, o yokozuna da Austrälia’ ou ‘Groucho, a Tartaruga’, era completamente imbecil. E esses são os melhores por isso. Na época, a Karen Reis também escreveu umas duas histórias – a ideia era que ela fosse escrever sempre, mas ela tinha preguiça.

Depois eu fiquei com preguiça de desenhar 30 quadros por história e fui fazendo umas coisas curtíssimas e bem sem graça, que já eram um esforço pra só não deixar o site morrer. Mas ele acabou morrendo e pronto. Mas eu gostava das entrevistas comigo mesmo. E de poder transformar qualquer coisa em uma história.

I – A ilustração brasileira sempre foi marcada pelo humor, sendo raríssimos trabalhos nacionais com foco mais dramático ou adulto. Você acredita que essa tendência esteja mudando? Como você vê o mercado de ilustrações no Brasil?

Isso mudou no mundo. Depois que as pessoas descobriram que uns calhamaços completamente sem nexo, tipo “Umbigo sem Fundo” podem ser publicadas até aqui no Brasil, ficou meio claro que tem todo um mercado pra se vender quadrinhos exóticos e chamar de cult. Aqui no Brasil o negócio ferveu mesmo porque uns caras foram lá e ganharam o Eisner, daí todo mundo pensou ‘oloco, eu também consigo!’ E nada contra, é até divertido.

É só que não tem um seguimento crescendo: hoje a gente pode fazer o que quiser e colocar na internet – a tecnologia tá lá, é só fazer e pronto. Daí a economia cresce, e ninguém mais acha que precisa trabalhar no Mc, e vai ser artista. A conversa de que ‘isso tá crescendo’ eu ouço em todo lugar: o hip-hop tá crescendo, o cinema nacional tá crescendo, o stand-up tá crescendo, o quadrinho brasileiro tá crescendo… E tá mesmo. Daí isso faz com que alguém além do Maurício de Souza publique alguma coisa. E nem todo mundo tá afim de desenhar a Turma da Mônica. Não é que haja uma tendência a mudar o foco do humor pro drama – é só que tem gente querendo comprar isso. Daí a gente vê uma coisa que sempre existiu, mas hoje isso chega na Livraria Cultura, ao invés de ser vendido de mão em mão.

Página do Quadrinho Garoto Mickey, de Yuri Moraes

I – Você participou da criação do Quadrinho “Garoto Mickey”? Como se deu esse processo?

Eu não participei da criação de nada no Garoto Mickey. O Yuri queria uns takes de uma história dentro da história, pra funcionar como uma alegoria da situação psicológica do protagonista em alguns momentos chave. Daí, quando ele tava desenhando o negócio todo, conforme ele chegava nas páginas que iam entrar esses takes ele me mandava um email perguntando se eu podia e depois mandava o roteiro. Era horrível porque ele sempre queria 602 ações por página e eu falava que simplesmente não cabia aquilo tudo numa página só. Daí ele ria e falava que essa parte era problema meu haioshaoshaohsaiosh. Mas acabava sendo bem divertido, porque ele escreveu umas coisas ridiculamente violentas, tipo atravessar o braço de um cara pela barriga do outro ou matar o protagonista da história a tiros depois de terem arrancado a mão dele. Essas coisas…

I – Você está envolvido em algum trabalho atualmente?
Não estou envolvido em absolutamente nada. Nem desenhar eu sei mais. Eu olho os meus desenhos antigos e choro em cima deles, porque eu era loucamente melhor há um ano ou dois. Hoje eu só lavo a louça e jogo Mario Kart.

I – Um pequeno bate e volta:
– Um homem que lhe inspira
          José Luiz Datena.

– Uma mulher
          A minha.

– Um Filme
          Os Excêntricos Tenenbaums

– Uma banda
          Twin Sister – mas isso muda o tempo todo.

– Para você, imaginar é:
         O que eu faço.

Para conhecer mais: Raoni Marqs
                               Box de Séries
                               Balnilia&Co

Ainda dá tempo de Querer Miles!

Miles Davis sob as lentes de Anton Corbijn. A foto fora tirada em 1985 para o álbum Tutu.

De fora das paredes curvas negras já podemos sentir o som que emana baixo, ora lânguido ora vibrante, como um convite indecente, cativando até leigos como eu, do poderoso Jazz de Miles Davis. Sou convidado por esse som e atravesso o pequeno corredor de paredes pretas, onde podemos ver penduradas no teto, cortinas já com a figura de Miles impressa. O par de paredes se abre e temos a sensação de entrarmos nos próprios arranjos da história do trompetista que se confunde com a própria história do Jazz. A exposição “Queremos Miles!” concebida pela Cité de la Musique de Paris  arrepia em todos os muito bem pensados detalhes.

As paredes tomam formas curvas, e nos guiam, como acordes improvisados, marca desse ritmo tão bem cultivado por Miles. Somos literalmente imersos por todo o universo do negro nascido em Illinois, e depois consagrado na famosa Swing Street, a Rua 52, centro do Jazz do mundo em Nova York.

A exposição reúne mais de 300 itens, de partituras a instrumentos.

Com a curadoria de Vincent Bessières, a exposição, que já passou por Paris, Montreal e Rio de Janeiro, reúne mais de 300 itens, de diplomas a valiosos rabiscos de papel, de quadros pintados pelo próprio Miles até filmes cuja trilha sonora é de sua autoria, de roupas aos inacreditáveis instrumentos, não apenas os domados por Miles, mas dos muitos parceiros e amigos que compuseram com ele.

Kind of Blue, de 1959, a obra prima de Miles, composto em conjunto com Bill Evans. O álbum é marcado por uma nova abordagem de improvisação, não mais baseada em acordes.

Somos guiados desde a sua infância, passando até o auge de sua carreira, em que podemos ouvir sua obra prima Kind of Blue de 1959, até sua reclusão devido ao uso abusivo de drogas, para depois voltar triunfante aos palcos.

Obra do artista plástico Mati Klarwein, para o álbum bitches brew. O álbum é influenciado pelo Rock dos anos 60 e de Jimi Hendrix e é marcado por um Jazz ácido, com uso de instrumentos elétricos consagrando o Jazz Rock e o Fusion Jazz.

A exposição não se limita ao cenário musical e expande para discussões nas artes plásticas, na fotografia, no design gráfico das capas, elementos que influenciaram Miles e foram influenciados por ele, tudo conduzido como uma deliciosa melodia de ode e paixão, amor e sofrimento, uma distante melancolia ressonando baixinho misturada a toda aquela efervescência, como se estivéssemos em um verdadeiro gueto dos negros da Rua 52.

Seu último álbum, Tutu de 1986. O ensaio fotográfico ficou por conta de Anton Corbijn. As fotos foram tiradas em um hotel no Canadá e se tornaram os registros fotográficos mais famosos de Miles.

Em entrevista à Folha, Vincent diz que “A mostra foi concebida para interessar a qualquer pessoa. Se você não sabe nada sobre Miles Davis, você poderá descobrir sua música e as várias fases pelas quais ele passou como um artista. Se você é um devoto de Miles Davis e conhece sua música de cor, poderá ver pela primeira vez objetos que estão sendo apresentados pela primeira vez: sete trompetes originais que ele usou durante a vida; raros ou nunca antes vistos filmes de Miles (lutando boxe, gravando); manuscritos originais de suas músicas, como “Birth of the Cool” (1949), “Porgy and Bess” (1958); um saxofone de John Coltrane (1926-1967); documentos de arquivos da Columbia Records contando histórias dos bastidores”.

Em cada elemento exposto podemos sentir a poderosa aura de Miles Davis, ecoa pelas partituras com todo o peso de uma lenda. Saímos da Exposição Queremos Miles com o espírito mais elevado, como se o poderoso fôlego do homem que reinventou o Jazz por mais de 30 anos tocasse em nossas almas e nos motivasse a sermos pessoas melhores. Saímos querendo mais Miles, Querendo Miles para nossas vidas.

A Exposição “Queremos Miles” vai até dia 29 de janeiro (amanhã!) no SESC Pinheiros

Esta Rua tão Augusta!

Rua Augusta em 1968

Augusta de todas as cores, credos, tipos e lugares. Do buteco à moda descolada, da puta ao clube de luxo, do graffiti pulsando na parede ao cinema alternativo. Esse interessantíssmo curta-metragem de nosso querido cineasta Carlos Reinchebach, produzido entre 1966 e 1968, nos mostra toda a efervescência dessa tão peculiar veia de São Paulo, já naquela época.

Música e LEGO, as capas de álbuns famosos de Aaron Savage

Divertidas re-leituras de capas de álbuns com LEGO pelo designer Aaron Savage em seu projeto Brick the LP

Fonte: Zupi