O uso do contraste de luz e sombra de Dave Mckean em uma tendência barroca. A década de 80 fora marcada por uma ruptura entre as histórias clássicas de súper-heróis para dar espaço a uma temática mais adulta

É até difícil categorizar Dave Mckean, ilustrador, músico, fotógrafo, cineasta. Pouquíssimos artistas conseguem dominar tão bem tantas expressões, e ainda fazer tudo bem feito, muito bem feito.
Nascido em Maidenhead, Inglaterra, uma cidade de 60 mil habitantes, Mckean viajou para Nova York em 1986 e, depois de ter procurado trabalho como ilustrador sem ter sucesso (!!) conheceu o escritor Nail Gaiman com quem trabalhou em sua primeira Graphic Novel, Vaiolent Cases, publicado em 1987. De lá para cá, participou de publicações como Hellblazer, Batman Asilo Arkhan entre muitos outras. A longa parceria com Gaiman rendeu incríveis trabalhos como Orquídea Negra, Coraline além, é claro, das capas da coleção mais famosa do escritor, Sandman.

O avanço das técnicas de impressão e do Photoshop permitiram experimentações com colagens e grafismos

Dave McKean foi um ícone dos 80 e 90, suas obras representam a década de experimentações e mergulhos das histórias em quadrinhos em mares mais adultos. Seus personagens caricatos muitas vezes vestindo máscaras distorcidas e seu intenso uso de sombra e luz nos remetem a uma tendência barroca das graphic novels, talvez justamente por representar uma período dual, em que a produção se distancia do universo de súper-heróis ao estilo Super-homem e adere a uma abordagem mais madura. Sua obra também faz referência ao surrealismo e ao onírico e é, muitas vezes, macabra.
A década de 1980 e 90 para os HQs foi marcada por um abandono da temática de super-heróis em vigor desde os anos 60. Os jovens leitores da época haviam crescido e pediam por tramas mais adultas, engrenando o mercado a amadurecer também. Roteiristas e ilustradores começaram a repudiar a clássica figura do super-humano de capa e cueca sobre a calça para darem espaço a temáticas mais profundas e histórias
mais complexas. Havia uma preocupação em apresentar protagonistas esféricos,
dotados de traumas, frustrações, e, muitas vezes, longes da figura do “bom moço”.
Foi nesse contexto que surgiram obras-primas como From Hell (publicado entre
1991 e 1996) de Alan Moore e ilustrado por Eddie Campbell, que nos trás a
história do famoso assassino de Whitechapel, Jack, o estripador, (o interessante aqui é que a história é contada sobre a ótica do Serial Killer!). Também vemos despontar figuras como Frank Miller e sua premiada série Cin City, cuja primeira publicação fora na edição especial de quinto aniversário da editora Dark Horse em 1991.
A indústria gráfica também se aperfeiçoava, o avanço da quadricromia permitia
ao ilustrador reproduzir colagens, grafismos e pinturas e editá-las na nova
ferramenta Photoshop. Técnicas como a hachura e o pontilhismo para
representarem a profundidade não eram mais necessárias. Talvez isso tenha
impulsionado McKean em suas experimentações permitindo-o a mescla de técnicas
tão característica de suas obras.

Garotas Perdidas, de Alan Moore e Melinda Gebbie. As donzelas dos contos de fadas cresceram... Suas vontades também...

O cenário de Fantasia Medieval fundado por Tolkien também passava por uma
reestruturação. As histórias de contos de fadas e heróis de capa e espada agora
eram mescladas com elementos mais realistas de nosso cotidiano como o sexo, a
traição e a morte. Publicações como As Brumas de Avalon (1979) de Marion Zimmer
e Stardust (1998) de Nail Gaiman trazem interessantes releituras de contos de
fadas, com uma temática mais adulta. O encontro com o escritor Nail Gaiman
contribuiu para essa atmosfera onírica nas obras de McKean em uma longa amizade
e parceria que duram até hoje.
Como diretor, McKean dirigiu e compôs a trilha de The Week Before (1998) e Máscara da Ilusão (2005), este ao lado de Nail Gaiman, além de produzir video-clips para diversas bandas.


Vídeo clipe da música One of Us, da banda Lowcraft, dirigido por Dave McKean.

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