Índio kalapalo dança em cima de plástico azul representando o Xingú na Paulista neste último sábado 17 de dezembro de 2011.

Rio Xingú, Estado do Pará. Município de Altamira.  De repente essas palavras se abundaram no vocabulário nacional. Ressurgiram de nossas épocas de colégio, quando o rio Xingú era não mais do que uma marcação azul no mapa pendurado na lousa das salas de aulas. Agora, parecem ter assaltado nossas línguas e correm velozes na rede, alvejando-nos em twittadas, feito flechas certeiras. E Xingú, Xingú mesmo, não o risco no mapa, não o primeiro post das redes sociais, ou a capa da Veja, Xingú lá do Pará parece ter ficado logo ali, virando à direita. E todos os seus índios, recém-chegados, parecem agora precisarem ser alocados às pressas, devido ao um predador chamado Belo Monte.

O projeto da Usina de Belo Monte

O projeto da Usina de Belo Monte. 640 km2 de área inundada.

Belo Monte fora exposta pelos artistas globais, feito uma criatura hostil. Como super-heróis, aterrissaram na internet, piscaram, tiraram a roupa e fizeram bico. Ary Fontoura, como um pai de todos, conclamou a presidente Dilma que exterminasse a terrível criatura. Então vieram os argumentos, os textos, os vídeos, pipocaram como verdades insuperáveis de que Belo Monte era ser abominável, e, portanto, deveria ser obliterado.


Belo Monte – Anúncio de uma Guerra. A úsina não será a única construída, existirão mais três.

Horrorizamo-nos pelos índios que não mais poderiam fazer seu suru e plantarem suas batatas e mandiocas em paz, afinal, agora eles estavam na nossa cara, e não era possível esquecê-los em algum livro de geografia. E nos espantamos pelos quilômetros de florestas depredadas nas obras, e até pelos peixes ornamentais que não mais poderiam ser criados na região.
E quando imaginávamos que a questão era unânime, quando estávamos prestes a deferir nosso irrefutável julgamento, deparamo-nos com respostas contrárias. O Parque Nacional do Xingú, tão ameaçado pelo alagamento dos 640 km2, nem fica no Pará, mas a mil quilómetros de distância, no estado do Mato Grosso, como afirmam os alunos da UNICAMP no vídeo “Tempestade em Copo D`água?”. A Ministra do Planejamento, Miriam Belchior, afirmou no senado que o projeto não prevê o alagamento de áreas indígenas e o custo da obra é considerado baixo. Os tão anunciados 640km2 de área alagada representam apenas 5% do desmatamento anual da Amazônia e é a menor área alagada se comparada com outras hidrelétricas nacionais. Esse valor justificaria o rendimento de apenas 42% da Usina (nenhuma hidrelétrica opera com 100% de rendimento) e a medida é pensada para provocar o menor impacto ambiental possível.

Belo Monte terá a menor área alagada se comparada com outras usinas. Medida pensada para provocar o menor impacto ambiental possível


Tempestade em Copo D`água? O Parque Nacional do Xingú não fica abaixos das barragens, mas em Mato Grosso, mil quilómetros acima de Belo Monte. O vídeo aponta para o desmatemento de mata virgem que já ocorre na Amazônia. Só no ano passado, foram devastadas 6.000km2 de mata, duas Belo Montes por mês.

Ocorre que o projeto da usina não nos assola desde já, mas desde 1989, quando a índia kayapó Tuíra, no I Encontro dos Povos Indígenas do Xingú, encostou seu facão no rosto de José Antônio Muniz Lopes, então diretor da Eletronorte, e, por incrível coincidência, homem de Sarney, sempre muito “atencioso” às questões energéticas do país, quando o projeto da usina ainda se chamava Kararaô. Primeiramente orçada em 4,5 bilhões, a obra já ultrapassa seus 30 bilhões e já se fala em 40 bilhões sem contar o imposto de grande nome chamado S.U.P.E.R.F.A.T.U.R.A.M.E.N.T.O. Barrada em 1989 devido às pressões dos movi mentos indígenas, Belo Monte agora volta com força total, atropelando inúmeras legislações ambientais e sendo forçada goela abaixo de nossas gargantas pelo governo Dilma.

A índia Kayapó enconsta o facão no então diretor da Eletronorte, José Antônio Muniz Lopes. Um gesto que correu o mundo e virou símbolo da luta no Xingú

Mas o que significa Belo Monte? Porque a insistência em sua construção? A Expulsão de tribos indígenas do Altamira, o desmatamento da mata virgem ou a extinção dos peixes ornamentais? Mais grave do que isso, Belo Monte significa a continuada de tomadas de decisões aos moldes da ditadura, sem a consulta dos povos locais envolvidos, a permanência de um governo PT/Sarney e a insistência de um modelo de energia que visa a reprimarização da economia.
A energia eletréica no Brasil tem como objetivo alimentar industrias de base, e grandes conglomerados, como a ALCOA, empresa norte americana, maior mineradora de bauxita do país. O Brasil exporta alumínio a US$1.500/tonelada, e, curiosamente, importa esquadrias de alumínio a US$3.000 / toneladas. Porque não fazer as esquadrias aqui?

A energia no Brasil é produzida em larga escala, e com destino certo, a indústria pesada comandada por empreiteiras e conglomerados internacionais, como, por exemplo, a de extração de bauxita para transformar em alumínio primário, processo que dispende uma quantidade absurda de energia e agride consideravelmente o meio ambiente. Significa que Belo Monte não está sendo pensada para abastecer seu notebook, ou sua TV enquanto você assiste à novela, Belo Monte vai atender as indústrias responsáveis pela exportação de matéria de baixo valor agregado pelo país. Mais do que isso, como toda obra faraônica, Belo Monte será explorada por toda sorte de políticos da região sob as asas do Sarney, que tirarão proveito para lucrar e ganhar influência em cima de todo e qualquer empreendimento direto ou indireto.

Infográfico que mostra o financiamento da obra pelo BNDS. 80% de Belo Monte sairá de nosso bolso e a usina só produzirá 4.000 mW de energia média. Em 2006 o projeto foi anunciado com um custo de R$ 4,5 bilhões. Hoje já ultrapassa os 30 bilhões. Definiu-se um custo de R$ 78 o megawatt-hora, número fictício porque não remunera o capital investido, ou seja, a obra sairá mais cara ainda.

Desde seu processo de privatização no governo FHC, o setor energético brasileiro não passou por crises devido à falta de produção, mas sim a falta de planejamento. Ocorre que o governo e setor privado não medem seus esforços na construção de novas usinas para abastecer esses grandes monstros do primeiro setor e não para a melhoria das redes de distribuição, ou no incentivo de projetos que visem novas formas de produzir energia, como o uso de energia eólica ou do bagaço da cana, métodos que, para o consumo local e doméstico são mais do que suficientes. Essa forma de lidar com a questão energética gera desperdícios de energia, porque não se investem em cabeamentos adequados, ao impacto sem responsabilidade em nosso meio ambiente, porque as obras não contemplam estudos completos e, o pior, por serem obras faraônicas, as brechas para o superfaturamento se abrem com muito mais facilidade.

Bagaço de cana. Seria possível produzir energia elétrica de três (!) Belo Montes com o bagaço de cana que é disperdiçado no país.

Belo Monte nos revela um triste acontecimento. É triste notarmos que trabalhamos tanto, que enchemos nossos cofres e vencemos a dívida nacional, que hoje possuímos capital acumulado e vamos invesitr mais uma vez em modelos exploratórios que beneficiam as multinacionais. Até quando iremos atender o industrial em detrimento da sociedade? Até quando iremos exportar laranja para importar Orange Juice? Até quando os nomes de projetos do governos serão belos apenas no nome?

Para saber mais: Movimento Xingú Vivo Para Sempre
Instituto Sócio Ambiental

Matérias que você precisa ler: Belo Monte, nosso dinheiro e o bigode do Sarney
Vídeos para ver: Marina Silva fala sobre a Usina Belo Monte 

Site do movimento Gota D`água, com petição contra a construção da usina.

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