Há meses tento reativar essa empreitada maluca que um dia talvez seja o Imagenária. Pois bem, fechemos bem as escotilhas, aprumemos as velas e partamos, tímidos, sob trancos e solavancos por entre a tormenta desses dias difíceis.
Os preços disparam nas prateleiras dos supermercados e a inflação, antes um fantasma de outros natais, agora já se faz ouvir seu galope, preocupantemente perto, ceifando nossos salários e correndo rasteira no encalço de nossos bolsos. Seguimos sozinhos, desconfiados da própria sombra, equilibrando-nos sob a utopia cada vez mais estreita da promessa de um Brasil. Lobby, Corrupções milionárias, repressão e censura. São tempos amorais em que os maiores absurdos somam-se às linhas banais dos noticiários, amortecendo-nos, em doses homeopáticas, nos levando a nos recolhermos em nós mesmos, tolerando o intolerável, cada vez mais intolerável.
A intelectualidade nacional (com raras e preciosas exceções) parece perdida em algum lugar do passado, ecoando teorias e analisando o país segundo uma ótica de 50 anos atrás. Parecem não entenderem que não vão encontrar a explicação sobre o que está nas ruas entre as linhas de suas velhas teses, é simplesmente outra coisa. Temerários por uma revolução esquerdista, temerosos de uma ditadura mitológica. Essa mesma intelectualidade que corria para analisar a “nova classe média” nacional agora parecem rechaça-la, evidentemente, pois dali há a chance de um ataque de extrema direita, culpam e despacham a sentença antes de se cometer o crime, rasgando a foto em que antes pousavam sorridentes perante os “avanços” da promessa de um governo dos trabalhadores.

Toquemos o barco.

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Estamos de volta! E estamos bravos! Muito bravos! Arte e protesto. Nas semanas que abalaram o país, Imagenária propõe um passeio pelos artistas da luta.

Os rostos brancos sorridentes marcham pelas ruas, um exército de anônimos. Quem esteve nos protestos nas semanas de junho, se deparou com a famosa máscara criado por David Lloyd para a Grafic Novel de Alan Moore, V de Vingança. Em entrevista a UOL, o roteirista de quadrinhos disse desejar “o melhor para os protestos no Brasil”.

Alan Moore fala, em entrevista para o site UOl, “Acho que o que estão fazendo é maravilhoso e espero que isso progrida para uma vitória”)

A imagem condensa uma idéia, se tornando um símbolo de forte impacto e rápido entendimento por praticamente qualquer um apto a enxerga-la. E este é o papel da arte para o ativismo nas ruas, ou “artivismo” como nomeia Carlos Latuff. Chargista conhecido mundialmente pelas charges em prol da causa palestina, começou sua carreira em 1990 publicando sua primeira charge para o Sindicato dos Estivadores e permanece trabalhando para a imprensa sindical até hoje. Em entrevista para o jornal online 247, disse “agora mais do que nunca é preciso levantar a voz e as canetas contra o estado policial em que estamos mergulhando”.

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o “artivismo” de Latuff

Latuff conta que os protestantes utilizam o Twitter para pedirem charges e utiliza a internet como principal meio de propagaçao de de seu trabalho

“(…) o fato é que a gota d´água foram vinte centavos. O balde transbordou e nos deu um banho gelado. Daqueles de acordar.” Rafael Grampá, na revista Sobre Ontem.
Nem a ameaça de chuva impediu de lotar a pequena galeria na Rua Augusta no lançamento da revista colaborativa Sobre Ontem. Criada por 17 quadrinistas brasileiros, Sobre Ontem é um relato belíssimo e sincero do sentimento que tomou as ruas nos dias de junho. Entre belas sequências de quadrinhos e textos em prosa, Gabriel Bá, Fábio Moon, Laerte, Rafael Coutinho e tantos outros nomes de peso na produção em quadrinhos nacional interpretam com criatividade toda a indignação dos ativistas e a dura repressão da polícia, o lobby das empresas de ônibus e as denuncias de corrupção.

Sobre Ontem, um registro sincero dos protestos de junho

Sobre Ontem, um registro sincero dos protestos de junho

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A Terceira Guerra Mundial já começou. Essa é a premissa da Third World War Illustrated. Criada pelo grande Peter Kuper e Seth Tobocman nos anos de 1980, TWW é uma compilação de histórias de diversos artistas, lançada duas vezes ao ano (contribuições esporádicas de Art Spielgman, nada mais nada menos do que autor de Maus) sobre a luta diária de diversas pessoas ao redor do mundo.

Third World War Illustrated, Se as primeiras duas Grandes Guerras foram eurocêntricas, a terceira não é.

Third World War Illustrated, Se as primeiras duas Grandes Guerras foram eurocêntricas, a terceira não é.

No blog da revista, seus fundadores descrevem a Third World War Illustrated como “uma revista em quadrinhos política semestral” cuja missão é “dar um brilho de realidade à fantasia do mundo cleptocrático norte-americano” (livre tradução).


Do vazamento de óleo nas bacias aos conflitos na Faixa de Gaza, TWW é o recorte do que expressa tão bem o blog Bloggzini da Chili com Carne

“Se as primeiras duas Grandes Guerras foram eurocêntricas, a terceira não é. É tão pós-moderna como os dias em que vivemos: fragmentada e irônica, cosmopolita e mediática, local e escondida, com eventos chocantes vividos até à exaustão para serem ignorados logo a seguir.”

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Para saber mais:

Brasil 247

World War 3 Illustrated

Peter Kuper

Seth Tobocman

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