Miles Davis sob as lentes de Anton Corbijn. A foto fora tirada em 1985 para o álbum Tutu.

De fora das paredes curvas negras já podemos sentir o som que emana baixo, ora lânguido ora vibrante, como um convite indecente, cativando até leigos como eu, do poderoso Jazz de Miles Davis. Sou convidado por esse som e atravesso o pequeno corredor de paredes pretas, onde podemos ver penduradas no teto, cortinas já com a figura de Miles impressa. O par de paredes se abre e temos a sensação de entrarmos nos próprios arranjos da história do trompetista que se confunde com a própria história do Jazz. A exposição “Queremos Miles!” concebida pela Cité de la Musique de Paris  arrepia em todos os muito bem pensados detalhes.

As paredes tomam formas curvas, e nos guiam, como acordes improvisados, marca desse ritmo tão bem cultivado por Miles. Somos literalmente imersos por todo o universo do negro nascido em Illinois, e depois consagrado na famosa Swing Street, a Rua 52, centro do Jazz do mundo em Nova York.

A exposição reúne mais de 300 itens, de partituras a instrumentos.

Com a curadoria de Vincent Bessières, a exposição, que já passou por Paris, Montreal e Rio de Janeiro, reúne mais de 300 itens, de diplomas a valiosos rabiscos de papel, de quadros pintados pelo próprio Miles até filmes cuja trilha sonora é de sua autoria, de roupas aos inacreditáveis instrumentos, não apenas os domados por Miles, mas dos muitos parceiros e amigos que compuseram com ele.

Kind of Blue, de 1959, a obra prima de Miles, composto em conjunto com Bill Evans. O álbum é marcado por uma nova abordagem de improvisação, não mais baseada em acordes.

Somos guiados desde a sua infância, passando até o auge de sua carreira, em que podemos ouvir sua obra prima Kind of Blue de 1959, até sua reclusão devido ao uso abusivo de drogas, para depois voltar triunfante aos palcos.

Obra do artista plástico Mati Klarwein, para o álbum bitches brew. O álbum é influenciado pelo Rock dos anos 60 e de Jimi Hendrix e é marcado por um Jazz ácido, com uso de instrumentos elétricos consagrando o Jazz Rock e o Fusion Jazz.

A exposição não se limita ao cenário musical e expande para discussões nas artes plásticas, na fotografia, no design gráfico das capas, elementos que influenciaram Miles e foram influenciados por ele, tudo conduzido como uma deliciosa melodia de ode e paixão, amor e sofrimento, uma distante melancolia ressonando baixinho misturada a toda aquela efervescência, como se estivéssemos em um verdadeiro gueto dos negros da Rua 52.

Seu último álbum, Tutu de 1986. O ensaio fotográfico ficou por conta de Anton Corbijn. As fotos foram tiradas em um hotel no Canadá e se tornaram os registros fotográficos mais famosos de Miles.

Em entrevista à Folha, Vincent diz que “A mostra foi concebida para interessar a qualquer pessoa. Se você não sabe nada sobre Miles Davis, você poderá descobrir sua música e as várias fases pelas quais ele passou como um artista. Se você é um devoto de Miles Davis e conhece sua música de cor, poderá ver pela primeira vez objetos que estão sendo apresentados pela primeira vez: sete trompetes originais que ele usou durante a vida; raros ou nunca antes vistos filmes de Miles (lutando boxe, gravando); manuscritos originais de suas músicas, como “Birth of the Cool” (1949), “Porgy and Bess” (1958); um saxofone de John Coltrane (1926-1967); documentos de arquivos da Columbia Records contando histórias dos bastidores”.

Em cada elemento exposto podemos sentir a poderosa aura de Miles Davis, ecoa pelas partituras com todo o peso de uma lenda. Saímos da Exposição Queremos Miles com o espírito mais elevado, como se o poderoso fôlego do homem que reinventou o Jazz por mais de 30 anos tocasse em nossas almas e nos motivasse a sermos pessoas melhores. Saímos querendo mais Miles, Querendo Miles para nossas vidas.

A Exposição “Queremos Miles” vai até dia 29 de janeiro (amanhã!) no SESC Pinheiros

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